Você sabia que o Rio Araguaia pode secar?

Gabriela Louredo

O Rio Araguaia vai secar daqui a 40 anos. Não é profecia. A previsão é do titular da Delegacia Estadual de Repressão a Crimes contra o Meio Ambiente (Dema), delegado Luziano de Carvalho, que constatou o agravamento dos impactos ambientais na região em função do agronegócio. “Na verdade, essa previsão nós falamos há três anos. A situação piorou muito porque continua o desmatamento em Áreas de Preservação Permanente (APPs), além do assoreamento do Rio Araguaia em todo o seu curso com grandes erosões, poços artesianos em grande parte da bacia e a novidade agora é a captação de água do leito principal para a irrigação”, afirma.

Delegado Luziano Carvalho estabeleceu prazo para produtores rurais recuperarem áreas degradadas.

Delegado Luziano Carvalho estabeleceu prazo para produtores rurais recuperarem áreas degradadas.

O delegado explica que o curso d’água ficará intermitente e deverá secar no período da seca. Foram instaurados três inquéritos policiais para apurar crimes ambientais na região. Em um dos casos, de acordo com Luziano, houve o desmatamento de uma área de 1,2 mil hectares no município de Mineiros, próxima ao Parque Nacional das Emas. Apesar de o proprietário rural ter a licença para tal, deve-se discutir o reflexo dessa ação humana para o Araguaia.

Nos outros dois, apura-se a canalização do leito do rio para o abastecimento de pivôs centrais de irrigação de lavouras de soja e de feijão e para o confinamento de gado. Apenas uma das propriedades, em Jussara, conta com 26 pivôs e retira milhões de litros d´água do rio. A situação é alarmante. Ele também alerta para o provável desvio do curso de um dos principais afluentes do Araguaia, o Rio Vermelho, após a construção de um canal de três quilômetros para abastecer nove pivôs em outra fazenda, em Britânia. Isso deve comprometer o Lago de Britânia.

Os responsáveis pelos danos ambientais deverão assinar um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), a ser mediado pelo Ministério Público, e terão um prazo para providenciar a recuperação das áreas degradadas.

Falta conscientização
É o que pensa o delegado que acompanha o Araguaia há mais de 16 anos, sobretudo durante a temporada de férias. Ele considera que o desenvolvimento econômico, apesar de necessário, não pode se opor à preservação do meio ambiente e que é preciso ampliar os investimentos em pesquisa e tecnologia para ampliar a produtividade naquelas áreas, sem novos desmatamentos. Ao constatar a falta de conscientização, Luziano acredita que urge disciplinar a atividade econômica no Estado.

“Não se pode comemorar o progresso sacrificando o Rio Araguaia. O recurso hídrico hoje é o patrimônio mais importante que existe. É preciso discutir desenvolvimento sustentável com muita sabedoria, com uma presença forte e confiável dos órgãos ambientais e policiais com muita honestidade em ações”, defende.

Recuperação ambiental
Nem tudo são espinhos. Nos últimos três anos, foram ouvidos os 20 maiores proprietários rurais de áreas banhadas pelo Araguaia nos municípios de Aruanã, Britânia, Jussara, Mineiros e São Miguel do Araguaia. Todos eles estariam degradando as lagoas naturais formadas na extensão da Bacia Hidrográfica do Araguaia com a presença de gado.

Em Jussara, proprietário rural canalizou água do leito do rio para abastecer 26 pivôs. Foto: Dema

Em Jussara, proprietário rural canalizou água do rio para abastecer 26 pivôs.
Foto: Dema

Eles tiveram um prazo de até um ano para cercar essas lagoas para garantir a proteção ambiental, o que já foi cumprido por muitos.”Presume-se então que tudo o que estavam fazendo era por negligência, mas se não for feito o isolamento, ele (produtor rural) incide no crime de impedir ou dificultar a regeneração natural na modalidade dolosa. Muitos fazendeiros cercaram as áreas, vistoriamos algumas delas e já temos ganhos ambientais. As principais nascentes estão totalmente recuperadas no município de Mineiros, as maiores voçorocas estão estabilizadas ou em processo final de controle de estabilização”, avalia.

Desmatamento

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Desmatamento em Mineiros.
Foto: Dema

 
No entanto, muitas erosões e pastagens devastadas preocupam e ameaçam o futuro do Araguaia, considerado o patrimônio natural mais belo de Goiás. Fotos aéreas feitas pela polícia revelam a grande extensão de áreas que foram abertas e os círculos em meio à vegetação são os pivôs centrais instalados nas propriedades.

A exemplo da Cota Zero – proibição da pesca e transporte de pescado durante a piracema, período de reprodução dos peixes, Luziano defende a aplicação da mesma medida para o desmatamento.

“Eu vejo nesse momento que talvez a melhor providência seja  zerar o desmatamento em Goiás, num período de cinco anos, mas esse tempo não é para acomodar, mas para recuperar as nascentes, as matas ciliares, os lagos. É um absurdo o que acontece na Bacia do Araguaia. Nascentes que deveriam ser protegidas estão sendo utilizadas de forma irregular com a presença de gado e agora também com pivôs centrais de irrigação. Além de crime é um dano ambiental gravíssimo e irreversível e isso pertence a toda a sociedade. Não queremos causar nenhum alarmismo, mas estamos colocando em risco o patrimônio natural mais bonito dos goianos. É importante para o ribeirinho, assim como é importante para os turistas e para as vindouras gerações”, denuncia.